O sistema construtivo não é decisão de obra — é premissa de projeto
Quando o sistema construtivo no projeto de arquitetura é definido depois da aprovação, o retrabalho não ocorre na obra — ocorre nos projetos, em três frentes ao mesmo tempo. Entenda o mecanismo.
Mariana M. S. Harada de Oliveira
6/8/20262 min read


A sequência que cria o problema
No processo tradicional, a arquitetura vem primeiro. Planta aprovada na prefeitura e no condomínio, memorial descritivo entregue. Só depois — muitas vezes na véspera de contratar a estrutura — o cliente define o sistema construtivo.
Quando a escolha recai sobre steel frame, essa sequência cobra seu preço.
O que muda com 5 centímetros
A parede de alvenaria convencional trabalha com 15 cm. O steel frame, dependendo do dimensionamento dos perfis metálicos, trabalha com 10 cm.
Cinco centímetros que parecem marginais redistribuem o projeto inteiro.
Os cômodos foram dimensionados para paredes mais largas. Os pontos elétricos e hidrossanitários foram posicionados para atender um layout que pressupõe aquela espessura. Quando a parede muda, o layout muda — e tudo que foi desenvolvido para ele precisa mudar junto.
O efeito cascata nos complementares
O projeto elétrico e o hidrossanitário costumam ser desenvolvidos em paralelo com a estrutura.
Quando o sistema construtivo muda depois que a arquitetura está aprovada, esses três projetos precisam ser revistos ao mesmo tempo. Cada ajuste num ponto elétrico pode conflitar com o trajeto hidrossanitário. Cada alteração de parede altera passagem de tubulação.
O resultado é retrabalho simultâneo em três frentes, com todos os projetos interdependentes e nenhum deles estável o suficiente para servir de referência para o outro.
Quando até as medidas externas mudam
Em alguns casos, o impacto vai além dos complementares.
A altura das vigas de aço pode não fechar com o pé-direito definido na concepção. A estrutura consome altura que o projeto não previu. A solução exige escolher: rebaixar o forro e perder o pé-direito original, ou alterar as medidas externas da edificação para acomodar a estrutura.
Nenhuma das duas opções é barata. E ambas exigem revisão de tudo que foi desenvolvido até ali.
O princípio
O sistema construtivo define espessura de parede, modulação estrutural, altura de viga e passagem de instalações.
Quando entra na concepção — antes do primeiro traço da arquitetura — essas restrições são premissas do projeto. Os cômodos são dimensionados para as paredes corretas. O pé-direito é definido considerando a estrutura real. Os complementares são desenvolvidos dentro de uma referência estável.
Quando entra depois da aprovação, não é adaptação. É um projeto novo usando como ponto de partida decisões tomadas para um sistema diferente.
A pergunta que deveria estar em todo briefing inicial
A compatibilização resolve interferências. Mas ela não substitui a decisão de sistemas.
O melhor momento para definir o sistema construtivo é antes da arquitetura, não depois da aprovação. Não por protocolo — por economia de tempo, de custo e de retrabalho.
A pergunta que deveria abrir qualquer briefing não é só “quanto vai custar a estrutura”. É também: qual sistema construtivo este projeto vai usar, e quais são as restrições que ele impõe à arquitetura?
